terça-feira, 8 de maio de 2007

Ônibus Parte I

Andar de ônibus no Rio de Janeiro é (ou tem sido) uma experiência digna de forasteiro em cidade grande. Escrevo por experiência própria, apesar de não me sentir um estrangeiro. Busco apenas sair de onde estou e chegar em segurança ao meu destino.

No início de minhas aventuras, procurei a orientação de passageiros "descolados". Daqueles que traçam rotas com precisão numérica: - pegue o 175, depois o 386, 486, pentium e assim por diante. Mas creio que a orientação dispensada não fora o suficiente.

Certa vez, desci em um terminal de ônibus com o exato objetivo de ingressar no ônibus nº 584, com destino ao bairro de Botafogo, zona sul do Rio. Como analista, pensei que um código de ônibus identificaria apenas uma linha, com origem e destino únicos. Saculejos mais tarde, observo atônito que o ônibus adentrara na favela da Rocinha, um caminho desconhecido para mim. Marujo de primeiro morro, descobri que quanto mais alto se sobe no morro, mais furos de bala decoram as paredes das casas:

- Para onde o senhor vai? - pergunta a cobradora ao único passageiro que resta (eu)
- Como assim? Vou para Botafogo! Este não é o ônibus 584? - respondo incrédulo
- Lamento senhor! Aqui é o fim da linha. Desça e pegue outro que vá para Botafogo - responde a cobradora.

Lição do dia: os números dos ônibus servem apenas para que idiotas como eu continuem perguntando: - Para onde vai este ônibus?

quinta-feira, 26 de abril de 2007

o sentido das forças militares


Quem me conhece sabe a minha opinião sobre o esforço (para não dizer gasto) empreendido na indústria bélica e nas forças armadas. Comecei a pensar sobre a existência das forças militares no mundo e no volume de recursos que este setor condensa a partir das minhas observações matinais dos navios ancorados no píer Mauá. Se para manter um simples carro em funcionamento exige uma soma de recursos considerável, imaginem manter em funcionamento um navio ou um submarino. Isto sem considerar todo o orçamento destinado ao pagamento do salário dos militares (ativa e reserva) .


Comecei a pensar na possibilidade de haver outras funções para esse contingente de pessoas que vive desta atividade (atividade militar). Algumas vezes os militares desempenharam atividades relacionadas à segurança pública nos Estados e importante papel em campanhas de vacinação, saúde, etc. Mas isto é muito pouco. Na ótica de um centro de custo empresarial, eu consideraria as forças armadas como de grande prejuízo. Se o bem maior obtido com este investimento é a aplicação de vacinas em localidades remotas e a "soberania nacional", considero então que pagamos muito caro por isso. Por quê? Simplesmente porque somos soberanos apenas em território.


E se não existissem forças armadas? Teríamos nosso território invadido? Qual a possibilidade de um país vizinho (que em sua totalidade são mais pobres que o nosso) invadir o território brasileiro? Temos condições de nos defender ante um ataque militar de uma grande potência bélica? Nossos vizinhos tem material bélico para nos dominar?


Eu creio que defender território através de forças armadas está longe de ser viável. O povo americano ainda não aprendeu com o Vietnã ou com o Iraque. Uma força militar pode dominar um território estrangeiro, mas não pode convencer o nação dominada disso. A prova disso é o quarto aniversário da invasão no Iraque. Curiosamente, somos dominados intelectualmente. E nenhum militar inimigo precisou pisar em nosso solo para alcançar este objetivo.


Vamos fazer um exercício? E se todos os recursos aplicados nas forças armadas fossem destinados à educação? Ou à saúde? Ou então no combate à fome? Que tal se transformássemos nossos obstinados militares em médicos, dentistas, professores, controladores de tráfego aéreo...


Há quem diga que eles já tem estas profissões. Então porque não transformar navios velhos em barcos para apoiar as comunidades ribeirinhas dos rios amazônicos? Ou transformar fuzis em livros. Tanques de guerra em comida? Não vai faltar emprego para os militares. Há muito trabalho em nosso país a ser feito.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

faculdades "drive-thru"

Como não encontrei termo em português para descrever o conceito de "drive-thru", fui obrigado a utilizá-lo no idioma original. "Drive-thru" é um serviço oferecido àqueles que param o veículo ao lado do estabelecimento para adquirir produtos. É utilizado por restaurantes (lanchonetes), farmácias, bancos e faculdades.

Na minha opinião é quase o mesmo conceito que está sendo aplicado às universidades privadas no Brasil. Observo atônito os estudantes resolverem suas listas de exercícios em praças de alimentação de "shopping-centers", enquanto saboreiam enlatados americanos. O que estaria acontecendo com a tradicional instituição de ensino, normalmente caracterizada por bibliotecas silenciosas, onde os estudantes absorviam o conhecimento utilizando a máxima concentração?

Talvez tenha sido uma coincidência do marketing. Há anos que cresce o contingente de jovens que aplica preciosas horas do dia em "shoppings" das grandes cidades. Provavelmente alguém pensou nisso e resolveu levar a faculdade até o jovem.

Outro conceito que surgiu e cresceu rapidamente foi o do ensino a distância. Ele surgiu na massificação das telecomunicações e na popularização da Internet. Agora o indivíduo se forma em casa mesmo. Fico pensando se o diploma chega pelo correio, afinal basta ter um computador com acesso à Internet e um CEP. Em hipótese alguma eu questiono a qualidade do ensino. Me pergunto apenas quanto à formação do indivíduo.

Devemos pensar se esta mudança é boa ou ruim. É notório que estamos vivendo em ritmo acelerado. Aqueles que possuem capacidade para lidar com múltiplos focos se sobressaem. Mas qual o preço desta dispersão? Seremos mais generalistas e menos especialistas?

À propósito: meu pedido é um livro de ciências, com bastante mostarda, por favor. Vou encostar o carro ali, enquanto você prepara o meu pedido e o cozinheiro lá dentro corrige a minha prova.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

nossas lentes invisíveis


Como primeira mensagem, procuro deixar uma interrogação na mente daqueles que desejam explorar seu próprio potencial e realmente fazer a diferença. A pergunta é muito simples.
Por que somos tão seletivos e não apreciamos todos os estímulos que nossos sentidos absorvem?

Nossos preconceitos nos impedem que experimentemos novos sabores, aromas ou até mesmo que atribuamos um novo significado ao que já consumimos todos os dias. Vivemos em um país que possui uma diversidade de frutas e alimentos que inveja qualquer "primeiro-mundo". Então por que consumimos quase sempre os mesmos alimentos? Nosso gosto pouco diversificado se comprova nas opções dos cardápios. Imaginem a seguinte resposta de um garçom: "Senhor, infelizmente não temos o tradicional suco de laranja, mas temos a oferecer o maravilhoso suco de camu-camu". É muito mais provável que tenha apenas suco de laranja.

Para observarmos o mundo que existe em nossa volta é preciso limpar nossas lentes invisíveis. Ver o mundo sob um novo paradigma me parece impossível sem que nossos sentidos estejam livres para capturar os estímulos externos.