Andar de ônibus no Rio de Janeiro é (ou tem sido) uma experiência digna de forasteiro em cidade grande. Escrevo por experiência própria, apesar de não me sentir um estrangeiro. Busco apenas sair de onde estou e chegar em segurança ao meu destino.No início de minhas aventuras, procurei a orientação de passageiros "descolados". Daqueles que traçam rotas com precisão numérica: - pegue o 175, depois o 386, 486, pentium e assim por diante. Mas creio que a orientação dispensada não fora o suficiente.
Certa vez, desci em um terminal de ônibus com o exato objetivo de ingressar no ônibus nº 584, com destino ao bairro de Botafogo, zona sul do Rio. Como analista, pensei que um código de ônibus identificaria apenas uma linha, com origem e destino únicos. Saculejos mais tarde, observo atônito que o ônibus adentrara na favela da Rocinha, um caminho desconhecido para mim. Marujo de primeiro morro, descobri que quanto mais alto se sobe no morro, mais furos de bala decoram as paredes das casas:
- Para onde o senhor vai? - pergunta a cobradora ao único passageiro que resta (eu)
- Como assim? Vou para Botafogo! Este não é o ônibus 584? - respondo incrédulo
- Lamento senhor! Aqui é o fim da linha. Desça e pegue outro que vá para Botafogo - responde a cobradora.
Lição do dia: os números dos ônibus servem apenas para que idiotas como eu continuem perguntando: - Para onde vai este ônibus?
